Pref cio "Te mando flores da Gr cia" requer um pref cio de advert ncia: o humor n o ser usado como camuflagem em nenhuma linha deste livro. Nenhuma palavra sequer. Em vez do recurso inventado com maestria por Jane Austen e usado com sagacidade por mulheres em autobiografias e fic es que chegaram s listas de "mais vendidos", Paula Brukm ller respira fundo (se for de frente ao mar, melhor ainda) e desnuda-se, completa e inteiramente, bem em frente de quem l . Paula usa a trag dia pessoal de sucessivos abortos, tentativas para engravidar, do fim de um casamento e da mudan a para uma cidade que n o era a que nasceu, como uma m quina retroescavadora. Enquanto completa uma volta ao mundo, sozinha e com uma mochila nas costas, busca quem quer ser, mas principalmente puxa de si mesma prazeres perdidos da pr pria feminilidade, e revela-se hedonista, devota, sensual, reprimida, ego sta, amiga. O come o desta jornada mesmo "um milagre do inconsciente". A conversa com o pr prio pai na Capad cia uma ternura. O assediador na Gr cia insuport vel. O amante 10 anos mais jovem uma del cia. As bebedeiras com duas amigas na Tail ndia s o selvagens. Nesta jornada de quase 400 dias por dezenas de pa ses, ela n o usa filtros. O salto corajoso de um penhasco que desafia o azul do mar Mediterr neo acaba com um bumbum vermelho, e muita vergonha. O banho "nude" em uma cachoeira secreta no deserto do Chile libertador, mas testemunha-se tamb m o rido trajeto at l . Est o lado a lado: o ch o de cer mica vermelha imunda, o frio na R ssia, ratos, fome, extravag ncias, falta de dinheiro, vistos negados na Oceania, l grimas, orgasmos, inseguran as, topless, extors o na Tail ndia, bebedeiras, ressacas, nomes esquecidos no Atacama, paisagens de tirar o f lego. Ao encarar a pr pria vulnerabilidade de maneira t o org nica, Paula corre o risco de ser admirada, odiada e, numa poca de julgamentos t o l quidos quanto relacionamentos, condenada. Mas a decis o de expor a pr pria jornada n o um recurso liter rio. expia o, fechamento de ciclo, processo de cura. Um caminho que acaba por desafiar, al m das conven es, o conforto de quem l . Por que, como avisado antes, a sensa o de al vio trazida pela com dia, como fez Elizabeth Gilbert, por exemplo, substitu da por press o. Paula bate de frente, mas s em si mesma, e transforma quem l em voyeur de todo o processo. Este n o um livro triste e esta "jornada de her i" pode at ajudar a quem l , mas este tampouco um livro de autoajuda. "Te mando flores da Gr cia" talvez caiba melhor entre os t tulos de viagem. Afinal, o que est proposto aqui mesmo uma jornada (e com dicas de como dar a volta ao mundo com pouco dinheiro, mas muita emo o). Eu, que tive a honra de encontr -la em um dos trechos desta viagem e embarquei com ela ao revisar este livro, s tenho a agradecer pelo desconforto, pelas l grimas, pelo gozo: "Te mando flores de Lisboa, Paula ". Raquel Lima